Tive o prazer de participar numa (excelente) reportagem da jornalista Marta Braga, para a revista Lux Woman. A reportagem fala sobre como é ser nómada digital e em como este estilo de vida e de trabalho é bem capaz de ser o estilo de trabalho do futuro.

Nessa reportagem, podem ler o seguinte:

Krystel considera-se uma privilegiada, mas lembra que nada disto tem a ver com o fator sorte. “Considero-me, acima de tudo, uma privilegiada por saber como gosto de trabalhar e saber o que quero e não quero da minha vida. Mais do que ‘sorte’, começar a trabalhar remotamente implica um processo de auto-conhecimento e auto-análise que não é fácil. Implica percebermos o que estamos a fazer mal, o que é que nos está a afastar da felicidade e o que é que precisamos de fazer para construirmos um equilíbrio com o qual estejamos satisfeitos. É um privilégio chegar a um ponto em que estamos felizes com aquilo que temos, com aquilo que fazemos e com aquilo que queremos alcançar”.

O processo de autoconhecimento que eu falo aqui foi um dos maiores desafios nesta construção profissional e pessoal. Tornar-me trabalhadora remota foi uma decisão que implicou a eliminação de várias ideias e crenças limitantes.

Perceber que o trabalho dito tradicional não era para mim e admitir que o caminho profissional que me faz feliz nada tinha a ver com a formação académica que tive, foi algo muito difícil de admitir. Foi como: “olha, afinal tudo o que andaste a fazer nos últimos anos, o dinheiro e tempo que andaste a investir, as esperanças que incutiste nas pessoas que gostam de ti, afinal não é nada disso que queres para a tua vida”.

É difícil admitir para nós mesmos que aquilo que ontem defendemos com unhas e dentes como sendo uma verdade absoluta, hoje já não faz qualquer sentido.

Esse foi o processo que mais me custou quando comecei a trabalhar para me tornar trabalhadora remota. Foi perceber que aquilo que eu acreditava e defendia como certo, era precisamente aquilo que me estava a levar para a infelicidade.

Foi perceber que o plano de ter uma casa grande, um salário com vários zeros e um cargo numa grande empresa, não era aquilo que me iria trazer felicidade. Não me interpretem mal: continuo a ser ambiciosa (às vezes demais), mas o meu valor máximo é o meu bem-estar e trabalhar com um propósito que vai bem mais além de dinheiro e satisfação material.

Percebermos que aquilo que queremos (mesmo que muito) por vezes não é aquilo que nos trará felicidade, é algo difícil. Ao fazermos isso, é o mesmo que admitirmos que estivemos errados e que sobretudo as nossas ideias e desejos estiveram a ser moldados por outros (pelos nossos pais, pelos nossos amigos e colegas e pela sociedade em geral) e nunca por nós.

Autoconhecimento: o primeiro passo para ser nómada digital

Os primeiros meses em que comecei a trabalhar remotamente lembro-me que não contei nada disso a ninguém. Era uma fase de teste para comigo mesma: será que é mesmo isso que quero? Será que sou capaz? Será que quero passar por um período difícil de trabalho e esforço?

Deitar abaixo esses “serás” foi um trabalho de autoconhecimento que me fez descobrir o yoga. Hoje já não pratico, mas durante o início da minha caminhada no nomadismo digital, o yoga permitiu-me relaxar e saber pensar por mim mesma, afastando todos os pensamentos e intrusões exteriores. Foi nessa altura também que descobri a meditação, exercício que me permite ainda hoje, durante alguns minutos, estar concentrada em mim e no agora.

Chegar a um ponto da vida em que percebemos que aquilo que andou a moldar cada decisão pessoal, académica ou profissional foram desejos e vontades de outros que não nós mesmos, é essencial. Esse trabalho de autoconhecimento permite descobrir quem realmente somos, o que queremos e o que precisamos para ser feliz.

Isto tudo parece uma conversa bastante banal e cliché, mas pensa um bocado: quantas pessoas é que conheces que estão realmente (a cem por cento) felizes com o trabalho que escolheram? Ou o curso? E que consigam te dar motivos válidos para terem escolhido esse caminho?

Muitas são as pessoas que não fazem a mínima ideia do porquê que têm aquele trabalho ou estão naquele curso. Eu era assim. Dei por mim a perceber que tinha ido para a universidade porque era “o certo” a fazer e porque me ia dar acesso a determinados trabalhos…que no fundo, nunca quis.

O autoconhecimento é, diria eu, o primeiro passo para o nomadismo digital. Acredito que é impossível sermos felizes com as nossas escolhas se não sabemos o porquê de as estarmos a fazer. Não perder de vista os nossos valores e motivações pessoais, é meio caminho andado para não nos arrependermos da decisão e para fazermos tudo, mas mesmo tudo, para que ela dure.