Viver em Paris durante seis anos: o que é que aprendi e descobri

Quando no início de 2010 decidi candidatar-me a universidades francesas, não imaginava o impacto que essa decisão iria ter na minha vida. Tinha 19 anos quando, sozinha, decidi ir viver em Paris.

A universidade acabou por não ser tão enriquecedora como a imaginava. Viver sozinha não era assim tão fácil e fascinante como eu pensava. Paris exigiu de mim muita coisa e ensinou-me o que é ser adulta e ser independente.

Foi lá que tive os meus primeiros trabalhos a sério para pagar rendas e contas ao final do mês e foi a viver em Paris que comecei a guardar todo o dinheiro que me sobrava para viajar. Bruxelas, Amesterdão, Lyon, Lille, Barcelona, Berlim, Budapeste…foram várias as cidades para as quais viajei a partir de Paris.

Mas uma das maiores aprendizagens de viver em Paris, foi a desmistificação de alguns dos maiores mitos e ideias pré-concebidas que tinha em relação à capital francesa e aos tão temidos parisienses. Têm alguma ideia sobre os parisienses que querem saber se é mesmo real ou não? Deixem nos comentários!

Os parisienses são snobs

É uma das coisas que se ouve mais sobre os parisienses e, depois de seis anos a partilhar a mesma cidade com eles, vou responder que é verdade. Mas que é também mentira.

Pessoas snobs existem em todo o lado, e em Paris acaba por ser talvez mais provável que te cruzes com pessoas que se acham superiores simplesmente porque é uma cidade com muitas pessoas num pequeno espaço (sim, a cidade não é assim tão grande).

No entanto, acho que a probabilidade de encontrares pessoas snobs ao viver em Paris é maior nos meios empresariais. Dependendo do setor de atividade da tua empresa, pode acontecer que encontres pessoas que se achem superiores (ou que o sejam mesmo…). Mas, no fundo, não é assim em todo o lado?

Os jovens e os setores culturais e artísticos são totalmente normais e bastante abertos a pessoas de nacionalidades diferentes, portanto não vais sentir que são diferentes ou superiores só por serem de Paris.

Viver em Paris é ter o hábito de comer croissants!

Croissants, baguettes e macarons

A loucura dos parisienses (e dos franceses em geral) pelo pão e pastelaria é inacreditável. Trabalhei quase dois anos numa pastelaria e é simplesmente louco como é que, debaixo de neve e temperaturas negativas, as pessoas são capazes de estar numa fila à espera para comprarem o seu pão e os seus croissants para o pequeno-almoço.

Confesso que viver em Paris incutiu este vício de, pelo menos uma vez por semana, tentar fazer um pequeno-almoço mais completo e à la française, no qual, com toda a calma do mundo, bebo o meu café acompanhado de pão, croissants ou pains au chocolat.

Os transportes em Paris são caóticos

Eis uma ideia que infelizmente é bem verdade. Não me interpretem mal: a rede de transportes de Paris está bem pensada e estruturada e tem ligações e acessos a qualquer ponto da cidade para onde queiram ir (seja nos subúrbios ou no centro da cidade).

No entanto, não sei se é por incompetência, pelos anos que o sistema de transportes já tem ou porque realmente a cidade tem demasiada gente a movimentar-se, mas foi rara a semana em que não apanhei atrasos, greves ou problemas na linha (ah, os famosos problèmes de signalisation…).

Apesar do caos, a verdade é que não deixa de ser o método de transporte mais prático, barato, rápido e acessível para se usar no quotidiano em Paris.

Viver em Paris e andar de bicicleta na cidade

Andar de bicicleta numa cidade (demasiado) cheia de carros

Foi em Paris que aprendi a andar de bicicleta no meio da cidade. Lembro-me como se fosse ontem a primeira vez que fiz de bicicleta uma das grandes rotundas em Paris no meio dos carros em total pânico.

Paris é uma cidade excelente para andar de bicicleta, com ciclovias nas ruas e avenidas principais. Nas outras, é preciso ter um cuidado muito grande, pois os condutores não gostam muito de partilhar a estrada com as bicicletas.

Se fores a Paris, aproveita o fantástico sistema de bicicletas Velib’, que por um valor diário, semanal ou mensal podes deslocar-te para e em qualquer lado da cidade a pedalar (e agora bateu uma saudade de andar de bicicleta nos finais de tardes de primavera ao longo da Seine…).

Um copo de vinho ao final do dia

Viver em Paris ensinou-me a aproveitar mais o dia do que a noite. Se em Portugal acabamos por viver mais a noite (sobretudo no Verão), em Paris sai-se cedo e volta-se cedo para casa.

Tem-se o hábito em Paris de ir beber um copo com os amigos ou colegas depois do trabalho e antes do jantar…e este é um hábito mesmo quando está frio!

Paris é muito conhecida pelas suas esplanadas (as famosas terrasses) e não é por acaso: fazem parte do estilo de vida dos parisienses. Aos primeiros raios de sol e calor, as terrasses abrem-se para receber os clientes; mas no Inverno, também é hábito ir para as esplanadas pois todas (ou a grande maioria) são aquecidas!

Viver em Paris é maravilhoso

Sim e não. Viver em Paris é sinónimo de viver numa cidade lindíssima, que a cada passeio nos faz descobrir algo novo e nos faz apaixonar um pouco mais a cada dia. No entanto, é cansativo e consome muita energia.

O desgaste do dia-a-dia, do trabalho, da vida pessoal e do ritmo caótico acaba muitas vezes por afetar o Amor que devíamos sentir todos os dias por essa cidade maravilhosa.

No fundo, viver em Paris é viver uma relação de Amor quotidiana e normal, no qual o brilho não está sempre presente mas o sentimento, esse, mesmo que apaziguado, preserva-se mesmo no meio da imperfeição do dia-a-dia.